quarta-feira, novembro 22, 2017
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Holofotes Culturais estarão apontados para Manguinhos em 2014!!

Para esse ano de 2014 há um projeto referente à organização de uma agenda cultural para Manguinhos, que envolverá alguns coletivos do bairro. Em entrevista à Agência de Comunicação Comunitária Fala Manguinhos!, o idealizador do projeto, Felipe Eugênio nos esclarece como é a ideia de realização.

 Agência de Comunicação Comunitária Fala Manguinhos – Felipe, quais as suas atividades em Manguinhos?

Felipe Eugênio – Milito em Manguinhos no campo da educação desde 2002, quando participei da fundação do Pré Vestibular Construção, que na ocasião funcionava nas dependências da Escola Estadual Clóvis Monteiro. Anos depois me envolvi com Educação de Jovens e Adultos e educação infantil, que é quando participo da Redeccap. Lá dei aulas e trabalhei na coordenação pedagógica do PEJA Manguinhos. Mas há cerca de 6 anos construímos um coletivo que é membro-constituinte da Redeccap (oscip local), o Ecomuseu de Manguinhos. Nisso acontece o meu envolvimento com a reflexão sobre cultura em territórios de exceção. Não é exatamente uma virada em relação ao trabalho com educação, pois mantenho o horizonte de que tratar de educação libertária é o caminho para a formação cidadã, e, ao pensar a cultura como campo estratégico para fundar outros paradigmas sobre a condição de cidadania precária da favela; no ecomuseu, pensamos sobre a autonomia dos coletivos culturais do território que jamais podem prescindir da atuação em rede, que é onde se cria liga sobre uma identidade territorial não apenas com sentimento de pertencimento, mas também no partilhar de uma pauta comum a todos. No Ecomuseu de Manguinhos, que é onde atuo, nos reconhecemos na função de mobilizar e aglutinar os atores culturais locais. Primeiro, para uma atuação menos individualizada e que consigam identificar pares e metas em comum, depois, já formados os coletivos que, mantendo suas causas e linguagens estéticas, consigam trabalhar também entre eles, ampliando as redes de intercâmbio já existentes, e, inclusive, conseguindo ampliar essa capacidade de intercâmbio para além-manguinhos, também com outros territórios  da cidade do Rio de Janeiro.

ACCFM – Como surgiu a ideia da Agenda Cultural pra Manguinhos e como isso vai se dar?

Felipe Eugênio – No ano passado foi possível construir a Rede Manguinhos Tem Cultura, que é uma espécie de “rede das redes” de atores culturais locais, posto que muitos coletivos de cultura em Manguinhos já atuavam em rede, como o pessoal do hip hop com a galera do skate e com o coletivo da poesia, o  Sarau Poético de Manguinhos.

A Rede Manguinhos Tem Cultura, por sua vez, foi um desdobramento da Mostra Cultural de Manguinhos, que aconteceu em junho de 2013. Nessa Mostra Cultural conseguimos identificar um grande número de artistas em Manguinhos (tanto os que atuavam sozinhos quanto os que estavam organizados coletivamente) e também alguns importantes agitadores culturais (no caso, outros dois coletivos estiveram nessa função mobilizadora junto com o Ecomuseu: o Ciab e o Projeto Cais). Passado o dia de shows com variadas linguagens artísticas no palco (hip hop, samba, teatro, teatro infantil, rock, mpb, declamação de poemas, exposição histórica, filmes e dança), os artistas e coletivos participantes foram provocados a manter aquela situação de intercâmbio, no que responderam afirmativamente e com entusiasmado. Daí, tivemos nascida a Rede Manguinhos Tem Cultura, com encontros semanais na Biblioteca Parque de Manguinhos, onde trocamos e afinamos muitas idéias e projetos para o território; e destes, o mais recente é a Agenda Cultural Mandela Vive.

ACCFM – Quais os coletivos ou atores envolvidos nesse planejamento? Aliás,o que é a Agenda Cultural pra Manguinhos?

Felipe Eugênio – Participam da Rede Manguinhos Tem Cultura os coletivos: as Ladie Gang’s, o coletivo Experimentalismo Brabo, o Conselho Comunitário, o Ciab, o coletivo Sarau Poético de Manguinhos, o Coletivo Favelofágico, a Cia Teatro Manguinhos em Cena, o Casa Viva, a Oficina Portinari, o grupo de pesquisa Território em Transe, o grupo de samba & choro Música na Calçada, banda Pop Urbano, Projeto Marias e Ecomuseu de Manguinhos.

Atualmente, da Rede Manguinhos Tem Cultura, participaram mais ativamente da formulação da Agenda Cultural Mandela Vive os coletivos Sarau Poético de Manguinhos, Conselho Comunitário, Banda Pop Urbano, Ladie Gang’s, Coletivo Favelofágico, Coletivo Experimentalismo Brabo e Projeto Marias.

A Agenda Mandela Vive é uma programação de eventos culturais que planejamos acontecer ao largo do ano de 2014, no Complexo de Manguinhos, com os coletivos de artistas locais como protagônicos. Nela temos o objetivo de provocar no território de Manguinhos a inclusão das suas manifestações artísticas como parte dos circuitos de arte e cultura da cidade do Rio de Janeiro – ou seja, é para criar diálogos para fora da favela também. Na Agenda Cultural Mandela Vive ainda trazemos também o debate sobre identidade e cultura negra, daí a homenagem a Nelson Mandela, que é nome de duas das comunidades de Manguinhos. O grupo que pensou o nome do ex-presidente e guerrilheiro sul-africano o fez meses antes de sua morte, a própria luta de Mandela e a homenagem territorial já eram suficientes para faze-lo de referência e que, agora, pós seu falecimento, se torna automaticamente amplificada.

ACCFM – Já tem uma data prevista para o início da Agenda Cultural Mandela Vive?

Felipe Eugênio – A Agenda Cultural Mandela Vive foi construída enquanto um projeto para entrar na disputa de um edital público. No caso, no edital da Secretaria Municipal de Cultura para renúncia fiscal do ISS. Segundo especialistas em produção cultural, que foram colaboradores na elaboração do projeto, há previsão que os trâmites burocráticos corram ao largo do primeiro semestre, e daí, sendo contemplado o projeto, os recursos são liberados após a Copa do Mundo.

ACCFM – Quais os desafios a serem superados para a realização deste projeto?

Felipe Eugênio – O mais importante dos desafios já está lançado: a manutenção da rede dos coletivos de artistas e agitadores culturais de Manguinhos. Haverá muita oportunidade para exercitarmos trabalhos em cooperação, logo, pautado em princípios de solidariedade e capacidade de alcançar coesão política que dê liga aos atores coletivos participantes e aos moradores que mais se aproximem dos eventos.

Outro desafio é conseguir trazer o resto da cidade para dentro desse território – desta vez para e pelo espetáculo. Não a espetacularização das iniquidades e das violências (reais e cotidianas), mas sim para o espetáculo das potências críticas e criativas (também reais e também cotidianas) que ficam sombreadas pela extensa lista de estigmas que hipertrofiam as violações de direitos sobre o território favelizado. A idéia é alimentar a fornalha que forja sonhos e que tais sonhos sirvam para trazer à toda a cidade o olhar sobre a favela (inclusive para superá-la em suas características de precariedades).

Há, por fim, mas não por último, o desafio de tratar através da arte (em suas múltiplas linguagens) da condição da população negra sobre a égide do capitalismo, onde se somam massacres genocidas à preconceitos e à achatamentos sócio-econômicos. Trazer para a curadoria das atrações artísticas a temática sobre a questão racial no Brasil, no lugar de colocar peso ao evento, na verdade traz à tona a rica cultura que construímos sobre nossa identidade étnica apesar do racismo onipresente no Brasil. Muitos coletivos em Manguinhos já ressaltam o cotidiano de luta, de beleza e de resistência cultural da mulher e do homem negro que mora em regiões periféricas; um exemplo são os jovens que fazem hip hop, assim como a companhia de teatro local. Se aproximar da cultura negra é apontar para o divino-maravilhoso que está sob nossos olhos, mas que são olhos míopes pelo racismo e classismo. Quem se chegar à Agenda Cultural Mandela Vive, tenho certeza de que terá com o que se surpreender em beleza e força. Isso desde já está nas esquinas de Manguinhos, a diferença é que desta vez, estará sob holofotes.

ACCFM – Há algum financiador?

Felipe Eugênio – Como disse anteriormente, há um fundo para projetos culturais da prefeitura do Rio, e esse fundo tem origem de recursos na renúncia fiscal que algumas empresas (previamente cadastradas) fazem do ISS.

Para a inscrição no ISS contamos com o apoio e assessoria da Coordenadoria de Cooperação Social da Presidência da Fiocruz e do Escritório de Captação de Recursos da Fiocruz. E, ainda, com a parceria de uma produtora com vasto currículo: o Centro Afro Carioca de Cinema Zózimo Bubul.

Mas, no final das contas, as parcerias foram fruto de articulação que identificava interesses comuns entre as missões institucionais de cada ente envolvido com a Rede Manguinhos Tem Cultura. Não houve grana envolvida ainda. O recurso mesmo, isso só com o resultado do edital, e, oxalá passe, já todo comprometido com as atividades apresentadas no projeto da Agenda Cultural Mandela Vive.

ACCFM – Quando se fala em uma agenda cultural, de quais seguimentos se está falando?

Felipe Eugênio – Estamos falando em multi-linguagens. Aliás, essa é uma das características mais inovadoras da Agenda Cultural Mandela Vive: os eventos contarão com fusões de linguagens artísticas, como a mistura de samba e teatro, de funk e literatura, de fotografia e dança.

ACCFM – Como tem sido a participação dos coletivos de Manguinhos nesse processo?

Felipe Eugênio – Durante o mês de outubro e novembro fazíamos reuniões semanalmente, nelas todos participavam com sugestões e correções sobre pontos estabelecidos na semana anterior. O número de coletivos junto à preparação do projeto da Agenda Cultural Mandela Vive é menor do que da própria Rede Manguinhos Tem Cultura, ainda assim, aqueles que não vão à reunião podem obter via internet o registro escrito das decisões tomadas nas reuniões, pois temos uma comunidade no facebook.

ACCFM – Você, enquanto coordenador desse projeto, responsável por essa organização dos coletivos, tem observado a evolução do cenário cultural em Manguinhos?

Felipe Eugênio – Tive um momento de grande encantamento com os resultados da Mostra Cultural de Manguinhos, acontecida no meio do ano passado, no teatro que fica junto à Biblioteca Parque de Manguinhos (que, aliás, é uma importante parceira dessas nossas recentes agitações e, de mais tempo ainda, uma parceira de alguns coletivos já mencionados aqui). Esse encantamento é decorrente d’eu ter conseguido ver tantas redes já formadas entre atores culturais (jovens e veteranos) e o modo de como esses atores, ativando suas redes, foram receptivos com a ideia de ampliar as conexões entre os artistas locais na proposta de formar a Rede Manguinhos Tem Cultura.

Dizer que há uma evolução eu não diria. A arte produzida nos territórios de favela sempre foi rica, como, aliás, é parte de nossa história da música popular, e, mais recentemente, de modo mais organizado, estão em efervescência a produção em cinema, em teatro, em literatura. Agora, no caso, há novidades que empolgam e essa novidade está na disposição dos atores artísticos/culturais de Manguinhos em construir uma cena de produção colaborativa de arte, fazendo assim algo que eu julgo ousado: no caso, fundir linguagens e buscar nisso manter uma qualidade estética. É um grande desafio artístico e, politicamente, é das coisas mais importantes que podemos ter (é um ovo de serpente). A favela tem voz através de muitos de seus moradores que se reconhecem como atores políticos; mas através de seus artistas a favela não apenas amplifica sua voz, como principalmente tatua signos através da voz que encanta. Longa é a arte no território que, empobrecido, infelizmente tem tão breve a vida. A arte pode colaborar para prolongar a vida, mas não terapeuticamente, e sim na resignificação simbólica sobre as vidas lá constituintes do que chamamos de favela.

ACCFM – Esse projeto tem o objetivo de ser sustentável?

Felipe Eugênio – A união política é sustentável a cada passo que se reconhece a força acumulada e seus efeitos. Economicamente é sempre difícil garantir a idéia de sustentabilidade no campo da cultura. Vá a qualquer produtora da cidade e pergunte: é uma constante de busca de recursos e disputa pelos mesmos. Como a economia está subordinada à política, e eu confio muito na vontade de fortalecimento da Rede Manguinhos Tem Cultura por parte de seus membros, o resto será travar relações com o Estado Brasileiro de modo que os recursos públicos sejam aplicados para ações de efetivo interesse público e transformador da realidade de desigualdades sociais.

Não acha esse argumento sustentável? Eu preferiria se fosse revolucionário. Ainda não o é, infelizmente. Mas aponta caminhos para mudanças, no que posso perceber. E acumula forças onde é mais necessário: a favela vive, tal qual as idéias que sustentaram a luta de Nelson Mandela.

ACCFM – Felipe, obrigado pela entrevista e boa sorte a todos e sucesso na construção da Agenda cultural Mandela vive.

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