sexta-feira, janeiro 19, 2018
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Moradores de favelas têm legião de fãs e inspiram outros jovens.

Eles são verdadeiras celebridades dentro e fora da internet, dão aulas de moda, editam revistas, fazem shows

TÁSSIA DI CARVALHO

Rio – Eles não andam, desfilam. E o que desfilam vira artigo de desejo. Eles são verdadeiras celebridades dentro e fora da internet. Dão aulas de moda, editam revistas, fazem shows. Seus fãs tatuam seus nomes. E todos são moradores de favelas.

“Antigamente as tendências de moda eram ditadas pelas camadas no topo da pirâmide, e as camadas mais baixas imitavam as elites. Hoje, não existe mais isso”, afirma a antropóloga do consumo Hilaine Yaccoub, doutoranda em Antropologia Social pela UFF.

Respeito e comprometimento são apenas alguns dos quesitos que Juliana Henrik (centro) do ‘Favela é Fashion’ exige de seus alunos

Foto:  Fernando Souza / Agência O Dia

Segundo Hilaine, que investiga as economias de compartilhamento em uma favela carioca, as tendências perpassam de forma homogênea todas as camadas sociais, e cada grupo absorve e usa o que mais lhe agrada. “Os jovens das camadas populares passaram a olhar para a mídia e fazer adaptações porque o barato não é apenas comprar o look da vitrine, é usar o que ninguém usa.”

A estilista Juliana Henrik, de 27 anos, sabe bem o que é criar seu próprio estilo. Moradora do Alemão, ela criou o ‘Favela é Fashion’, que começou como um evento de moda, há quase três anos, e hoje é um projeto social que ensina jovens de todos os tipos e tamanhos. “Também temos deficientes visuais, autistas.” Mas se engana quem pensa que é só chegar e desfilar, Juliana é linha-dura no quesito comprometimento. “Se matar aula, veto desfile. Se repetir de ano, é eliminado!” Mas os jovens não desistem. Atualmente Juliana tem mais de 80 em seu casting. “Meus modelos já estiveram até na novela ‘Salve Jorge’.”

Ela ainda criou sua própria grife a Fashionismo Juliana Henrik. “Eu não crio moda, crio tendências. Faço roupas do tamanho 36 ao 60, é só encomendar!”

OS MAIS DESCOLADOS DO FUMACÊ – Criar o próprio estilo foi a saída do trio Felipe Salsa, de 23; Anderson Ki Pula, 21; e Fernando Cook, 22. O estilo de vestir virou jeito de dançar, cantar, viver dos artistas da Favela do Fumacê. Há três anos, formaram o grupo ‘Os Descolados’ e bombam no YouTube com músicas e batalha do passinho. “Um estilo descolado é quando você usa uma coisa comum de um jeito diferente”, tenta conceituar Cook. “Ou quando você usa algo que uma pessoa comum não usaria”, complementa Ki Pula. Se o estilo parece complicado de definir, para as fãs a paixão é incondicional. “Já até tatuaram meu apelido, ‘Espanhol dos Descolados’, no traseiro”, lembra Cook para inveja dos outros parceiros.

Grupo ‘Os descolados’, da Favela do Fumacê

Foto:  Fernando Souza / Agência O Dia

MODA QUE VIROU REVISTA – Quando se inscreveu no curso da Agência de Redes para Juventude (projeto de empreendedorismo do premiado ativista Marcus Faustini), no Salgueiro, a estudante Ana Paula Bloch, 17, sabia que queria fazer moda. “Customizo minhas roupas e as dos amigos. Quero ser igual àquela mulher do ‘Diabo Veste Prada’ e dizer o que devem usar. Faço parte de um grupo cover da Beyoncé.” Seu projeto virou a revista ‘Sou Dessas’. “Tenho 1.500 seguidores no Facebook. A página da revista tem mais 1.600. O que uso é muito curtido. Todos dizem que sou show, a melhor!”. E sua prima Carolina Sant’Ana confirma. “Me inspiro nela, só saio de casa após ela falar que a roupa está boa. Se ela não gostar, troco!”

Revista ‘Sou Dessas’ tem 1.600 seguidores no Facebook

Foto:  Fernando Souza / Agência O Dia

A ROQUEIRA DA MARÉ  – Elza La Sombra, 35, é a líder da banda Algoz, que costuma se apresentar no circuito roqueiro da favela: Ministério Metanoia (igreja evangélica de roqueiros, que já existe há 20 anos), Bar do Zé Toré e Lona Cultural.“Já sofri preconceito por ser roqueira e morar aqui”, diz a organizadora de eventos musicais que atraem grupos de todo o país à Maré. Com estilo dark, ela é adepta de calças e da cultuada Elvira, a Rainha das Trevas. “Dizem que sou parecida com a Pitty no estilo de vestir e de cantar, mas gosto mesmo é da Elvira. Acho o cabelo e as roupas dela perfeitas demais”. Na música, a cantora é fã da banda de heavy metal alemã Rammstein. “Adoro o estilo deles”.

A roqueira da Maré Elza La Sombra, 35, é a líder da banda Algoz, que costuma se apresentar no circuito roqueiro da favela

Foto:  Carlo Wrede / Agência O Dia

Rebecca Vieira, 22, trabalha como produtora da Agência de Redes para Juventude e estuda Publicidade

Foto:  Paulo Araújo / Agência O Dia

A GORDINHA MAIS FASHION DO BATAN – Ela é negra, fashionista e tem cabelos louros. Rebecca Vieira, 22, trabalha como produtora da Agência de Redes para Juventude e estuda Publicidade.

Tem quase 2.800 amigos no Facebook, que curtem absolutamente tudo que ela posta na rede.

“Uso o que me faz bem e acho absurdo as peças ‘plus size’ ficarem escondidinhas nos fundos das lojas. Meu dinheiro vale menos que o dos magrinhos? Quero minhas roupas na vitrine e não escondidas!”, diz a jovem que assume as proporções do corpo.

“Quem acha que tem que estar magra para estar bonita para de achar. O importante é ter estilo. Já sofri preconceito, mas ignoro”. E as inspirações? “Queen Latifah e Beyoncé.” E para as ‘plus size’ que quiserem se vestir como ela, Rebecca dá o mapa da mina. “Vai no Feirão de Caxias e no Calçadão de Bangu, dá para achar coisas muito boas!”

Fonte: http://odia.ig.com.br/noticia/riosemfronteiras/2014-07-20/moradores-de-favelas-tem-legiao-de-fas-e-inspiram-outros-jovens.html

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