quarta-feira, novembro 14, 2018
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COMO ESTÁ A SAÚDE NO COMPLEXO DE MANGUINHOS? O QUE PODE SER FEITO PARA MELHORAR?

Para conhecer a opinião dos moradores sobre essas duas perguntas, o Fala Manguinhos! ouviu o também Agente Comunitário de Saúde, Fabio Falcão Monteiro.

Conheça a opinião dele e nos mande a sua.

É fácil falar da saúde em Manguinhos. O difícil é falar bem. São muitas as situações que desfavorecem quando tratamos deste assunto. Como falar de saúde e não falar em saneamento básico (digo, o básico), coleta seletiva, obras abandonadas do PAC, Saúde do Jovem e Adolescente? As obras afetaram o fluxo dos rios que cortam a comunidade, as casas ficaram abaixo do nível da rua, basta um pouco de chuva para o rio transbordar e deixar a comunidade alagada. Quantos ainda continuam perdendo tudo o que tem e ficam com a saúde cada vez mais comprometida devido as águas das enchentes? 

Casas abandonadas, que não foram demolidas, acumulam entulhos. Não é preciso procurar muito para encontrarmos crianças brincando descalças em ruas com valas de esgoto a céu aberto. Encontramos lixo espalhado por toda parte, devido à coleta precária, onde animais domésticos e abandonados como gatos, cachorros, porcos, urubus, pombos e ratos, além de espalharem os resíduos tóxicos, aumentam a proliferação de doenças, contraindo-as e repassando para seus donos, assim que voltam para seus “lares”, afetando diretamente a saúde das famílias de Manguinhos.

Quando o lixo acumula muito, alguns, talvez sem o conhecimento, ateiam fogo, o que gera uma fumaça tóxica que torna o ar da comunidade impróprio, causando doenças respiratórias. Sem falar de quem passa por perto e fica com o cheiro impregnado nas roupas e cabelo. Como ir trabalhar assim? Não dá. É necessário voltar em casa para tomar banho e trocar de roupa, isso quando não há falta de água e luz. Sem sombras de dúvidas, o lixo é sim um dos maiores causadores de doenças na comunidade.

O que falar, então, dos focos de dengue? É difícil não ter uma família em que não tenha passado por um caso de dengue, zika ou chikungunya. Quantos focos já foram denunciados e notificados pelos agentes de endemias e agentes de saúde, e que permanecem da mesma maneira, servindo de criadouros de mosquitos, como no caso do abrigo Cristo Redentor, onde os órgãos competentes, ou incompetentes, passam a diante as responsabilidades.

Os profissionais da saúde, além de sentirem-se impotentes, ficam à mercê da violência. Quantos serviços já não foram cancelados, ou interrompidos, devido aos constantes confrontos que dizem que é de combate à violência, mas lavam as nossas ruas de sangue? E isso em uma comunidade que se diz “Pacificada”. Como solucionar isso? Entra ano e sai ano e continuam os mesmos problemas. Será que estamos diante de uma causa sem solução?

Muitos já visitaram Manguinhos: governadores, prefeitos, vereadores, deputados, candidatos e até presidentes, polícias, fundações, pesquisadores,organizações sociais, ONG’s, projetos e, por incrível que pareça, a cada vinda, retiraram alguma coisa da comunidade: tiraram fotos, tiraram casas, tiraram direitos, tiraram escolas, tiraram creches, tiraram vidas, tiraram dignidade, tiraram cultura, tiraram acesso, tiraram saúde, retiraram informações para suas pesquisas e não deram retorno algum, a não ser para os próprios pesquisadores. Todos estes, ao longo do tempo, vêm violentando a comunidade, retirando de um povo sofrido apenas o que lhes é de interesse próprio e depois viram as costas. Por este motivo os mesmos problemas perduram, sem soluções definitivas, e as famílias de bem, além de reprimidas, têm que pagar pelo descaso.

A saúde de Manguinhos tem solução, sim. Mas é necessário investimento em educação ambiental, aliada com praticidade, pois não adianta ensinar a comunidade e não dar condições suficientes para que ela coloque o aprendizado em prática, lá mesmo, dentro da comunidade. É necessário saneamento básico, valorização dos profissionais da saúde que atuam no território, combate à desigualdade social e todas as formas de preconceito, segurança, política pública voltada para a saúde e desenvolvimento social do jovem e do adolescente, valorização da mulher, pois todas estas coisas interferem diretamente na saúde de todos. Mesmo em meio a esse caos, existem pessoas que não deixam a esperança morrer, e seguem em frente trabalhando por uma comunidade melhor para se viver. ”

Fábio Falcão Monteiro

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