quarta-feira, novembro 22, 2017
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Contos de Papel de Sangue – Autor Tarcisio Lima

Tarcisio Lima é  um jovem morador de Manguinhos, e encontrou na Literatura caminhos para traduzir suas visões e vivências do cotidiano Periférico. Ele agora faz parte da Equipe Jornal Fala Manguinhos! e apartir de hoje teremos semanalmente um conto de sua autoria para lermos e nos indentificamos, emocionarmos ou contestarmos.

Esse primeiro conto faz parte do livro Publicado pela FLUPP ( festa literária das periferias)  2016. 

 

Tiroteio em Terra de Cego  

Acordei tenso com o som que ecoou dos tiros, levantei da cama e caminhei até a porta do meu barraco para discernir se o tiroteio estava acontecendo próximo ao beco onde moro. Ao meu redor, o silêncio novamente entre os becos e vielas. Talvez fosse um pesadelo, pensei. Meus olhos não descansaram a noite passada, preocupado com a geladeira vazia e o desemprego que ocupava minha vida. Fui até a mesinha improvisada e liguei meu rádio velho com um CD dos Racionais MC’s.  “Lave o rosto nas águas sagradas da pia, nada como um dia após o outro dia.” As letras penetraram minha alma como o frio que tem feito esse ano enquanto lavava o rosto, decidido a sair atrás de emprego. Caminhei esses dias feito louco atrás de um trampo. Peguei o celular e liguei pro Zecão pra ver se tinha algum bico que me rendesse algum trocado. 

– E aí Zecão, firmeza? 

– Tranquilo e tu meu fiel?

– Tô meio preocupado, tô precisando de uma grana, tem alguma coisa que possa me ajudar?

– Chega aqui na pracinha, pra gente fumar um baseado e trocar uma ideia, tenho uma fita aqui, mas não sei se tu vai abraçar.

– Firmão, em cinco minutos chego aí.

Vesti uma camisa, peguei meu boné e fui de encontro ao amigo.

– Oh, o bagulho é o seguinte: tô com uma glock e um oitão aqui pra fazer um assalto na pista, qual vai ser?

– Pô mano, nunca peguei num ferro na vida, não sei nem como atirar.

Zecão foi me ensinando como manusear a arma enquanto eu desfazia o baseado. Ele foi me passando todos os detalhes do roubo: seria no dia seguinte, numa padaria em Vila Isabel, onde uma conhecida dele trabalhava. Passou toda a informação necessária pra executarmos o serviço. Estremeci de medo por dentro, mas não podia fazer desfeita com o amigo. Na manhã seguinte, o céu estava nublado, ofuscando toda a beleza do sol da manhã, uma sensação de desespero tomou meu peito, mas não podia fraquejar, não queria passar fome. Fui até a pracinha encontrar o amigo, que já estava de moto me esperando. E assim partimos pra realizar nosso plano. Chegando ao local, rendemos o gerente do balcão, adentramos pela porta que levava à sala do patrão e o rendemos, minhas pernas tremiam, mas eu mostrava coragem, apanhamos os malotes que estavam empilhados na mesa e saímos, mas fomos surpreendidos por um carro da PM que passava fazendo ronda pelo local. Subimos na moto e saímos em velocidade, e começou a perseguição. Dei dois tiros a esmo tentando distrai-los, mas eles estavam na nossa cola. Quando subíamos o viaduto próximo à Mangueira, fui atingido no braço esquerdo, e Zecão tentou entrar na favela. Agora já tinha reforço policial. Dois amigos armados com um fuzil 762 atiraram contra os PMs, mas a inabilidade os fazia errar o alvo. Corri o quanto pude, mas antes de ser atingido pelo PM, pude ver meu amigo sendo morto. Os outros dois foram cercados. No dia seguinte, pude acompanhar a notícia do hospital Salgado Filho, onde eu estava sob escolta. A dor de perder um amigo invadiu meu peito como a bala que se alojou no meu braço. 

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