sábado, novembro 18, 2017
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CONTOS DE PAPEL E SANGUE – DEMITIDO PORQUE…

POR: TARCÍSIO LIMA

Aquela palavra não saía da minha cabeça, mas ecoou por todo o corpo: demitido. Fiquei sem chão, não esperava por isso, porque vinha me dedicando ao trabalho. Fazia duas semanas que eu começara a trabalhar como padeiro numa padaria em Laranjeiras. Numa madrugada fria, acordei as 04:00 horas como de costume e coloquei um som do A286 pra tocar enquanto me aprontava pra ir pro ponto pegar o busão. “Se o sol te deu outro dia faz diferente, antes que só restem flores pra dar de presente.” Ouvi tiros ecoarem rasgando o vento, decidi esperar um pouco. Os disparos aumentaram e fiquei sentado esperando até que estivesse em condições de caminhar até o ponto. Cheguei no trabalho quase 09:00 horas e fui direto me explicar ao chefe o porquê do atraso, já que deveria bater o ponto às 06:00. O Feitosa que não ia muito com minha cara começou a jogar piadinha, mas fiquei na minha porque ele era um puxa saco do caralho, qualquer coisa que eu dissesse ele poderia usar contra mim. Enquanto isso eu pensava nos últimos acontecimentos que houvera esses dias. 

Quando cheguei em casa fiquei sabendo que um policial fora morto onde eu morava, já esperava pelo pior. Disseram que tentaram até pegar o fuzil dele, era merda na certa então, pensei. Dia seguinte o som dos tiros me despertou e acordei tenso com a respiração pesada, porque o tiroteio era na rua onde morava. Minha mente conturbada, pois havia sonhado que tinha sido baleado quando caminhava em direção ao serviço. Mas a realidade era um pesadelo, porque vivia numa guerra que não era minha. No dia anterior a mãe do PM chorou e naquele momento pensei em qual seria a próxima mãe que iria chorar. Quando o sol começava a aparecer entre os becos, liguei a TV pra assistir ao noticiário, mas só o jornal comunitário oferecia informação pela rede social. Impossibilitado de sair pra trabalhar pedi a Deus que não perdesse meu emprego, minha filha estava com seis meses e minha esposa estava desempregada.

No cair do sol pra dar lugar à noite, fui até a pracinha, nunca tinha visto tanto policial pela favela, até o choque estava por aqui. Cumprimentei o Sthênio e ele me disse que o Orelha tinha sido morto, senti náuseas e um frio por dentro de mim, porra o orelha era meu mano desde moleque. Fui até a casa dele pra tentar dar um consolo pra mãe, que dava um duro danado pra sustentá-lo sozinha. Parecia que parte dela tinha sido alvejada também, porque ela chorava muito. Até quando viveríamos em guerra? até quando escalaríamos os nossos pro time fúnebre que só deixam saudade? No dia seguinte a mesma merda, mais uma vez fiquei impossibilitado de sair pra trabalhar e me perguntei quantos estariam na mesma situação que eu. Pelo número de pessoas que encontrava no ponto de ônibus não deveria ser pouco. Quantos compromissos desmarcados ? Quantas mães em desespero porque os filhos não estavam em casa no momento dos tiros? Quando retornei ao trabalho os olhares dos funcionários se direcionavam a mim, fui até o chefe me explicar:

– Desculpe pela falta, nesses dois dias teve operação na comunidade onde moro. 

– Sinto muito mas não prosseguiremos com seu teste, você faltou dois dias no seu período de experiência e o dono achou melhor dispensá-lo. 

Mesmo revoltado por dentro, aceitei a situação. O silêncio tomou conta de mim, tirei o uniforme e fui pra casa. Chegando em casa minha esposa perguntou porque eu viera mais cedo pra casa, expliquei que tinha sido demitido e me senti pequeno naquele momento. Pedi a Deus que me desse uma nova oportunidade pra começar, em meio a guerra que não sei quando terá fim…

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