domingo, novembro 19, 2017
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PÁ-PUM – crônica da Realidade

por -Hailton Farias

 

 

PÁ-PUM. Mais um barulho de tiro na favela. Correria. Gritaria. Fogos. Mais um dia comum em nossas vielas. Mataram o Joãozinho: “Ah, mas ele ficava no meio dos criminosos”, “se tivesse em casa, não teria tomado um tiro”, “maconheiro tem que morrer mesmo”, diziam alguns. Dona Maria, mãe de João e mais cinco meninos, solteira, chora em cima do corpo estirado no chão. Enquanto isso os tiros e gritarias não param. Ouve-se: “vai morrer cu azul”, mas também “bota cara seus filhas das putas”. PÁ-PUM. Mais um corpo no chão. Dessa vez, cai o corpo do Sargento Rocha. Mais um corpo morto no local e seus amigos o arrastam para tentar socorrê-lo. Não há mais o que fazer. Correria. Gritaria. Mais tiros. Até que do nada percebe-se um silêncio ensurdecedor. Duas vidas, duas realidades diferentes, mortas, por um ato desastroso. Chega o rabecão. Os corpos são coletados e fazem todo o procedimento para ambos serem enterrados. Dona Maria, encontra-se em desespero, não tem dinheiro. Começa a fazer o rateio na comunidade e até que consegue enterrar seu filho. Rocha, não recebeu o auxílio do Governo e sua esposa está sem condições financeiras, o mesmo não recebia há quatro meses. As contas estavam sendo pagas com a ajuda dos bicos que ele arrumava. Os amigos de farda se reúnem e se juntam para custear o enterro do amigo. PÁ-PUM. O governador vai à tevê se pronunciar sobre os fatos ocorridos na Favela “Faz o que quer” e diz: “- Infelizmente, nem tudo saiu como esperávamos. Precisamos reprimir o tráfico naquela localidade”. Um jornalista o interrompe: ” mas, governador, como você quer jogar os policiais nas comunidades com coletes furados, armas velhas, sem nenhum equipamento de proteção. Você não acha que eles correm riscos?” Imediatamente, o Governador, responde: “- É o que podemos oferecer no momento”. Dona Maria, sente-se indignada com as palavras pronunciadas pelo Governador e começa a chorar. Mulher do Rocha entra em depressão. O Estado acaba de matar mais duas pessoas na guerra, na qual só pobres morrem. Ainda assim, mesmo depois dos fatos mostrarem que operações nas comunidades mal planejadas não dão certo, de acordo com o apresentador Wagner Montedementiras o problema será resolvido combatendo os traficantes das favelas. Quantos João e Rocha terão que morrer para saber que estamos no caminho errado?

 

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