quarta-feira, novembro 22, 2017
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Contos de papel e sangue- Tarcísio Lima

Em Conversa

Era final de expediente no trabalho. Ralava numa lanchonete, que por ser na favela de Manguinhos, tinha um fluxo de usuários de crack que iam pedir comida. Depois de um dia cansativo e com forte dor de cabeça só pensava em ir pra casa, quando uma voz cortou meus pensamentos:

– Ô Nem, sobrou algum hambúrguer aí pra comer?

– Não. – respondi.

– Posso pegar o lixo pra ver se tem alguma coisa?

– Não vou jogar fora agora, quer aguardar eu terminar de arrumar?

– Tá bom.

         Parei o que estava fazendo e fui preparar um misto pra que ela comesse, por algum motivo senti vontade de ajudá-la.

– Recolhe as mesas por favor, enquanto preparo algo pra você comer. 

– Tá bom, qual seu nome? 

– Thiago e o seu?

– Paula.

– Você mora…

– Peraí que já volto. – Ela cortou minha pergunta e atravessou a rua. Eu terminei o lanche dela e continuei arrumando as coisas pra ir embora, dois minutos depois ela voltou com seu sorriso amarelado estampado no rosto. 

– Ebaaa!! Minha colega me deu dois reais…

– Já vai fumar um crack né? – Brinquei, na maldade de saber se ela era usuária ou não.

– Vou não Nem, mas já fumei hoje sabe…

– Você tá com quantos anos?

– 29

– E você fuma há quanto tempo?

– Desde os meus 19.

– Caralho, mas você não pensa em parar de fumar?

– Eu penso né… sabe, mas tudo no tempo de Deus sabe.. eu comecei a fumar crack porque eu era muito presa,não sabia que o crack deixava a gente assim e o garoto que deu pra eu fumar nem usa mais…

– E tua mãe?

– Ela mora aqui perto, ela trabalhava e dava duro pra me sustentar, mas ela não falava pra mim que as drogas faziam mal, essas coisas, perde a inteligência. Meu padrasto me batia quando eu ficava até tarde na rua, mas ele não falava que aquilo era pra eu aprender a chegar mais cedo sabe.

– Mas você ainda tá nova, já sabe qual o efeito, porque não tenta parar?

– Ah Nem, eu quero parar, arrumar um trabalho, hoje eu até trabalhei pra mulher, mas ai deu vontade de fumar eu fui lá e fumei. 

– Você não pensa nas pessoas que você ama, em recomeçar e construir uma família?

– Eu queria ter um esposo, eu já fui até casada antes do crack, só que não deu certo, ele gostava de forró e eu não, nessa época eu só fumava maconha, aí as colega ofereceu loló e eu comecei a usar. Aí ele me dava dinheiro e eu comprava loló escondido pra dar pras minhas colega.

– Toma. – Entreguei a ela o lanche. – Senta ai e come e quando acabar leva esse lixo por favor.

    Coloquei o saco de lixo próximo dela e ela largou o lanche pra revirá-lo.

– O que tu tá fazendo? porra eu te dei o lanche porque não gosto de te ver se sujeitando a comer coisa do lixo.

– Eu sei Nem, mas eu só mexo quando to com fome. As vezes vou pra casa comer, mas as vezes eu reviro o lixo mesmo.

– Você não pensa em pegar uma infecção? 

– Eu não, eu só vou lá e como… terminei mais alguma coisa?

– Não.

– Tchau Nem.

– Tchau. 

Tarcísio Lima

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