quarta-feira, novembro 22, 2017
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contos de papel e sangue – Papo de Boteco

autor: TARCÍSIO LIMA

foto: Edilano C.

Fala Shawlin.

– E aí mano tranquilo? tá perdido essa hora? 

– Tô nada. Hoje é meu aniversário, vim pra rua espairecer um pouco. 

– Ih mano, parabéns meu fiel. Vamos beber um gelo, vou descer uma pra nós. 

– Eu não tô acostumado com comemoração não. Ninguém nunca fez nada pra mim no meu aniversário a vida toda. 

– Mano sei como é… fui criado sem pai e sem mãe, motivo pra comemorar é o de estar vivo e completar mais um outono. 

– Eu também Shawlin, meu pai eu nem sei quem é e minha mãe sumiu no mundo, tinha tudo pra tá na vida errada, mas graças a Deus tive um anjo na minha vida que foi minha tia. Eu já catei papelão, já pedi esmola, comia aquelas frutas que sobrava da feira, muitas vezes estragadas. Por isso que hoje em dia quando eu vejo alguma criança eu ajudo mesmo.

– Só quem passou fome sabe a necessidade do outro. 

– É mesmo, algumas pessoas se comove e ajuda, vê a criança toda suja, mas a maioria não quer nem saber. Eu tinha um amigão, o binha, que Deus o tenha, cresceu comigo também no mesmo sofrimento, sem pai e sem mãe. Mas não teve a mesma sorte de encontrar alguém, foi pra vida do crime e morreu. 

– Minha vó que me criou, graças a ela hoje posso ser quem sou, mas passei um tempo com minha mãe e os amigos que eu tinha a maioria era envolvido. Eu não usava nada, mas a convivência faz você entrar pra vida sem perceber. Só que um foi preso e o outro baleado. Parei pra pensar e vi que não era aquilo que eu queria pra mim. O que minha coroa iria dizer se me visse portando arma? não, não era a vida que eu queria pra mim e nem pros meus. 

– É verdade, eu queria mudar o mundo, mas esse mundo tem miséria demais, muita maldade.

– Claro mano, sempre existe os dois lados, pra alguém de cima gozar de luxo, muitos de nós tem que viver na miséria. Falta mais amor ao próximo. 

– E essa porra toda por causa de dinheiro.

– Dinheiro faz com que a gente mate e morra, é foda.

– Porra, um parceiro meu morreu por causa de 50 reais. 50 reais, 5 pedra de 10. Ele perdeu e o cara matou ele. O outro morreu por causa de 5 reais. 

– Pra você ver né mano. A maldade paralisa. Acho que a gente deveria dar valor pro que se leva pra vida inteira, família, quem tá do nosso lado sem se importar com o que tamo vestindo. 

– Pode crer, eu já tive uma mulher que eu amava muito,dava tudo por ela Shawlin mas eu vacilei legal. Ela tinha condição, eu trabalhava de pipoqueiro e ela vinha me beijar no meio das amigas, tudo filhinha de papai. 

– A gente só aprende a dar valor quando perde. Eu sei isso na prática. 

– Falando nisso, não perde tempo que a cerveja tá esquentando. 

– Ih ée mesmo mano. Mas eu vou terminar essa cerva e vou me adiantar, vou pra casa que minha filha me espera. Vou dar um abraço nela porque as crianças são o futuro né, mas só enquanto somos o presente.

– É isso. Vai lá mano. 

– Fica ai na paz vlw mano? 

– É nós.

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