segunda-feira, dezembro 18, 2017
Home > Cultura > DESABAFO | Contos de Papel e Sangue | Tarcísio Lima

DESABAFO | Contos de Papel e Sangue | Tarcísio Lima

Enquanto o céu chorava furiosamente, aguardava em baixo de uma lona a chuva diminuir, acendi um cigarro e comecei a pensar nos moradores de rua, até que o Jota me trouxe de volta dos meus devaneios: 

– Rola o cigarro.  

Tirei do bolso um cigarro e o entreguei junto com o isqueiro. 

– Tá tudo tranquilo pelo Jaca?  

– Tá foda, hoje a bala tava 

comendo, os PMs não querem mais chegar pra prender não, agora só quer chegar pra matar, cadeia tá cheia, tu acha que eles vão querer levar preso? Eles só querem prender se for de menor. 

Eu não duvidei da ideia do mano, já que o estado dá permissão de genocídio e a impunidade garante a matança, além do que uma das frases que mais costumo ouvir é que bandido bom é bandido morto.  

– Papo é reto… 

– Muitos menor tão querendo sair do plantão por isso, os cara não tão perdoando não. Outro dia eu tava de casa, aí ouvi o som dos tiros, olhei pelo buraco que fiz da minha casa pra ver qual era e ouvi um dos cana falar pro outro “atira! atira, porra, não era pra tu deixar correr”. Quando eu sai pra rua bati de frente com dois, entrei pelo beco já tirei a camisa e fingi que tava trabalhando de mecânico, sem documento, sem nada, não pode dar bobeira, tenho dois artigo nas costas… 

– Tu já ficou preso? – perguntei. 

– Já, cumpri cadeia mas já tô limpo… meu irmão que tá preso, ele foi preso em 2012, ficou dois anos, saiu, foi roubar, foi preso de novo, aí disse que tinha virado crente, que tava mudado, saiu, foi roubar de novo e rodou de novo, agora tá lá… 

Pensei no sistema carcerário por um momento, com a ressocialização que não regenera, lembrei que um menor infrator me disse que eles davam até comida estragada, mas quem ia reclamar? Era isso ou ficava com fome… sem contar as condições precárias que se encontram as cadeias.  

– Tu nunca pensou em escrever tua história não? – perguntei voltando de meus pensamentos. Li um livro de um homem que ficou mais de 10 anos preso, o Luís Alberto Mendes, ele mudou a vida dele através dos livros.  

– Eu não gosto de ler não, não tenho paciência.  

– Mano, eu acredito no poder da leitura, já ouviu falar do Eduardo? Ele é rapper, cantava no Facção Central e já foi do crime, hoje é traficante de palavras. Você pode vencer através dos livros, pra te eu te ver livre. 

– Eu quero sair, mas meu filho tem que comer.  

– Se não for por você, faça por ele. Você quer que seu filho cresça sem pai? Já pensou se numa dessa é você mano? Deus me livre, mas temos que fazer um futuro melhor pras crianças. Não quero te ver virar foto estampada em camisa, com o semblante de tristeza no rosto da sua mina… falando nisso como ela tá?  

– Tá bem, tá grávida ela…  

– Aí mano, mais um motivo… a chuva abaixou, vou ter que me adiantar, mas pensa nessa ideia mano… sei que é foda sobreviver na correria do dia a dia mas, como nós, tem que ter fé em Deus e acreditar num futuro melhor.  

– É isso, vou me adiantar. Valeu,chefão. 

Enquanto o amigo se distanciava pensei no meu mano preso, com três filhos sendo criado pela avó e como ele estaria, será que ele terá outra atitude quando sair? Só o amor se sobressai sobre o ódio e a revolta, pedi a Deus que colocasse um pouco de amor no coração dele… E naquele momento as nuvens deixaram de ofuscar a beleza da lua, acho que o céu respondeu minha oração. 

 

foto: Edilano C.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *