sábado, novembro 18, 2017
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RELATOS DE UMA DOR | Contos de Papel e Sangue | Tarcísio Lima

O cansaço dominava meu corpo depois de um dia exaustivo, saindo de um trabalho e indo pra outro. Uma PM chegou e fui atendê-la, não estava muito amistoso e ela ainda fez um comentário que me deixou bolado: 

— E esse olho vermelho aí? Tava fumando um baseado né? 

O que ela estava pensando? Que olho vermelho em favelado é só pra quem fuma maconha? Será que ela não vê quem acorda cedo pra trabalhar ou trabalha até tarde pra garantir a sobrevivência? De repente chegou um senhor, que me pediu uma cerveja e soltou um desabafo:

— Me vê um latão aí por favor. Olha que raça ruim.

— Aqui eu atendo na boa, mesmo que eu não vá muito com a cara deles. 

— Eu não gosto de polícia não, os policiais do Bope mataram meu filho, tá entendendo? 

Sim, eu estava entendendo e atentei meu ouvido aquela história porque já conhecia o método de trabalho da polícia na favela.

— Mas ele era envolvido com alguma coisa? – Perguntei.

— Não, meu filho tava vindo da escola, tá entendendo? Porra, meu filho não era bandido, se ele fosse, problema era dele mas, ele tava com blusa de escola, quando recebi a notícia eu estava no trabalho, pedi ao supervisor pra sair e fui no hospital, a dor invadiu meu corpo.

Parei pra pensar no mano que tinha sido morto esses dias, enquanto ouvia ele continuar:

— Eu entrei em depressão, Fiquei 20 dias sem trabalhar, o médico me deu atestado porque eu disse a ele que não tinha condições, tá entendendo? Vou trabalhar como? Perdi meu filho. Eu não conseguia sair de casa pra nada, só sabia chorar.

Notei que seu semblante era de tristeza ao relatar aquilo, enquanto ele soluçava suas palavras: 

— Eu nunca faltei na empresa, sempre fui um bom funcionário, cheiro meu bagulho mas não roubo de ninguém, sustento meus filhos mas não quero mais continuar aqui. Tô com 6 anos de casa, pedi pra me mandar embora porque eu vou voltar pra minha terra, não quero que aconteça com outro filho meu porque eu não vou aguentar.

Pensei na minha filha, porra podia ser ela, senti uma dor no peito. Quantas pessoas que tem que sair de suas casas por conta da violência? Até quando isso vai durar? será que isso um dia acaba? Quantos jovens não morrem vítimas de uma guerra que não é deles? 

Não tinha palavras pra compensar aquela dor, talvez o pó fosse a fuga daquele senhor que perdera um filho, quantas pessoas não acreditam que o vício é a fuga para os problemas? Pra dor? Fiquei em silêncio, só com minha voz interna em meus pensamentos depois que ele se foi, com a certeza de que histórias como aquela se repetem e não só aqui em Manguinhos…

Edilano C

 

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