segunda-feira, dezembro 18, 2017
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LEMBRANÇA | Tarcísio Lima

Só quem perdeu um parente sabe a dor da despedida. A vida é ciclo onde é mais comum os pais irem de encontro à morte antes dos filhos, mas comigo não foi bem assim. Estava no horário de almoço na empresa onde eu trabalhava há 6 anos no setor de produção quando fui noticiado da morte do meu filho de 15 anos, a bala que o matou acertou minha alma em cheio. Me disseram que foram os policiais do BOPE que o mataram quando ele vinha da escola, porra, meu filho não era envolvido com nada e estava vindo da escola!!!

Pedi permissão ao supervisor e fui confirmar a notícia, não, não era engano, era o meu filho caçula. Morávamos no Jacarezinho e o enterro foi no cemitério de Inhaúma. Revolta, cartazes pedindo justiça e na TV o noticiário mostrava o artista que foi pego traindo a esposa. Enquanto a lua clareava a noite e os exaustos descansavam, eu chorava a dor de não tê-lo mais sorrindo vindo me dar boa noite, dizendo que me ama, pois, quando a mãe morreu vítima de câncer de mama, eu assumi esse duplo papel, pra que eles pudessem crescer de forma agradável e sonhar com a faculdade, já que a vida não me permitiu tal oportunidade.

Fui ao médico de manhã cedo, disse que não estava em condição de trabalhar porque perdi meu filho e ele me deu um atestado pra que eu ficasse 20 dias afastado. Nada mais me importava, eu mal comia. Minha filha mais velha me disse que eu precisava me alimentar pra me manter vivo, mas de que vale ter vida quando um dos motivos que nos faz viver é tirado da gente? Ao olhar-me no espelho após o enterro vi meu semblante abatido, eu não tinha esse rosto. Ao apresentar-me novamente na empresa, conversei com meu supervisor que iria voltar pra minha cidade natal na Paraíba com minha filha, porque não queria que ela também fosse vítima da violência policial. Ele me deu os pêsames e disse que iria me dar as contas, pois, já foi morador de favela assim como eu e sabia a dor de perder um parente. Vendi minha casa e com o dinheiro da minha rescisão comecei uma vida nova em minha cidade. As pessoas são boas, mas a maldade do mundo as corroem. Depois daquele dia nunca mais fui o mesmo, parte de mim morreu com meu filho, mas tenho fé que a justiça de Deus irá prevalecer, porque aqui a impunidade garante a morte de milhares de inocentes, que quando é enterrado acaba enterrando alguém junto…

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