quinta-feira, outubro 19, 2017
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POR UM FEMINISMO NEGRO | Renata Dutra

Já falamos por aqui sobre a luta das mulheres e como suas causas são importantes para a construção de uma sociedade mais justa e melhor para todos. Mas será que a luta de toda mulher é igual?

A luta das mulheres em geral já é pouco citada na grande mídia e nos grandes veículos de comunicação, agora vamos pensar na luta das mulheres negras…Menos ainda não é? Segundo o portal de notícias Geledés.org.br, em 2009, as mulheres negras correspondiam a cerca de um quarto da população brasileira. Mas calma, aí! Como ainda existe tanto preconceito? Por que ainda são tão discriminadas? Pensando nestas questões, o Fala Manguinhos! entrevistou seis estudantes negras que dividiram com a gente um pouco da sua história, nos ajudando a entender que o racismo e o machismo são pautas fundamentais ao pensarmos sobre uma sociedade mais justa.

Muitas relataram traumas adquiridos nas escolas, um lugar em que a criança está começando a sua vida social. Andressa Martins, 21 anos, moradora de Manguinhos e estudante de RH na Unisuam: “Já aconteceu uma situação na escola que me deixou muito mal. E a escola é o princípio de tudo. Uma vez a professora passou um filme que falava sobre os escravos e meus amigos falaram que eu estava na televisão. Hoje para mim é um orgulho carregar esta história, ela representa a luta e a força que a pessoa negra tem.” conta.

Para Andressa, a mulher tem que assumir a sua raiz e se orgulhar dela: “Agora eu assumo as minhas raízes com orgulho, eu já sofri muito com isso. Demorei muito para me aceitar. Você precisa assumir seu cabelo, sua beleza que é só sua, e se sentir bonita sendo você. Temos que saber que todos são iguais, independente de cor, raça” finaliza.

Adara Oluwafemi cursa biomedicina na UERJ e fala sobre as diversas formas de preconceitos que existem: “No mercado de trabalho ainda tem muito preconceito com a forma como nos apresentamos. Por exemplo: cabelo black ainda é motivo de dispensa de vaga de emprego. Na Universidade tem o preconceito com os cotistas, ne. Enfrento isso na pele. Sou de uma facul onde 80% é de brancos e ricos, sabem bem que tô lá por cota. Que jamais poderia pagar 1500 de mensalidade. E o fato de ser mulher ainda é complicado porque ainda acreditam que mulher não pode ser/ter o mesmo que homem. Sendo negra então…”. Relatou também sobre a discriminação que já sofreu em uma loja do shopping: “Sofri numa loja no Rio Sul. Fui comprar um vestido de formatura e 4 vendedoras da loja não vieram me atender. Hoje prefiro não frequentar mais lugares de ricos. Fora que todo dia falam para eu alisar o cabelo ou um ‘faz Beleza Natural’ que é um tipo de relaxamento, apesar dos cachos”, diz.

Letícia Marques é estudante de psicologia da UERJ: “Uma outra coisa que vejo na universidade são os relatos de meninas negras que tiveram dificuldade de encontrar estágio por conta de ser negra e de usar o cabelo natural. Também outra coisa que não tá ligado tanto à universidade é a solidão da mulher negra”. Citou também pontos positivos sobre esta luta: “Eu acho importante falar também da questão da coletividade que está relacionada com a união entre as mulheres negras. Hoje vemos na faculdade grupos de estudo para mulheres sobre a cultura negra, para trocar figurinhas sobre as nossas vivências. Outro exemplo de coletivo é um grupo chamado ‘Indique Uma Preta’, onde as participantes indicam mulheres negras para algum trabalho”.

Jéssica Domingues, moradora de Manguinhos, estuda letras na Estácio, nos falou sobre os preconceitos vividos dentro e fora do Brasil: “Quando trabalhava embarcada, um passageiro me xingou por estar na frente dele e impedindo que entrasse pois a loja estava fechada. Já viajei bastante e em cada lugar sentia uma coisa diferente. Por ser mulher e brasileira eles acham que somos todas prostitutas. Foi preciso estabelecer limites até com amigos para que me vissem de forma diferente”.

Carina Andrade, moradora do Complexo do Alemão, estuda letras na UERJ: “O preconceito com o negro nas instituições de ensino, vem desde o jardim de infância. Daí você espera que tal situação melhore por estar em uma universidade, lidando agora com adultos, mas não muda muita coisa. Acho que uma prova disso é a constante discussão em torno do sistema de cotas, já que apesar dele não incluir somente os grupos de cotas raciais, mas também os de cotas sociais, o que gira em torno da raça é o único posto em questionamento. Tudo bem que devemos respeitar a opinião do coleguinha, mas é de conhecimento geral que o negro, na maioria das vezes, é o pobre, que tem poucas oportunidades, que vem de baixo e quando consegue subir, ainda tem que ultrapassar as barreiras impostas pela sociedade, já que numa entrevista de emprego ele é visto como inferior, numa loja fazendo compras é seguido por seguranças, na rua à noite é visto como o ladrão…É uma triste realidade, mas a mulher negra no Brasil sofre uma segregação constante desde o nascimento. A maioria de nós não nasce em berço de ouro, temos que lutar pra ter o que chamar de nosso”.

Cinthia Hellen, cursa letras na UERJ: “O mundo é extremamente cruel com as mulheres, principalmente com as mulheres negras. Somos sempre taxadas por nossa aparência e pela cor da nossa pele. Eu já vivenciei o preconceito em vários ambientes diferentes, como na escola que me deixou marcas profundas, e também na rua, em lojas, no trabalho, na família e entre amigos”, conta.

A luta das mulheres negras é um assunto bem amplo e que deve ser falado. Vamos lutar todos juntos contra o racismo e o machismo. Por um feminismo negro, que dê conta das vivências e violências sofridas por essas mulheres. O Fala Manguinhos! está nesta luta, se junte a nós. Se você deseja compartilhar sua história com a gente nos procure. Mande um e-mail para falamanguinhos@gmail.com ou fale conosco atráves de nossas redes sociais.

 

Renata Dutra é jornalista do Fala Manguinhos.

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