segunda-feira, dezembro 18, 2017
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Transporte Público em Manguinhos – mão dupla entre o descaso e a insegurança


Moradores de favelas passam por lutas diárias, seja por descaso em segurança, saneamento básico, educação, saúde ou mesmo na hora de se deslocar na cidade. Quando o assunto é transporte público , cada um de nós, moradores de Manguinhos e de outras favelas temos um trauma: perdemos compromissos importantes, somos desrespeitados, ou até agredidos moralmente. Histórias que se repetem . Às vezes esquecemos que esse transporte é público, pago com nossos impostos, e que essas histórias deveriam fazer parte de um passado e não de nosso cotidiano, afetando a vida da população, a ponto de perdermos grande parte de nossos dias dentro de um ônibus. Você já fez o cálculo de quanto tempo perde dentro de um ônibus durante um ano inteiro?

Faremos esse cálculo juntos: se em média trabalhamos 250 dias por ano, e gastamos em torno de três horas entre o ir e vir do trabalho, perdemos em média 750 horas dentro do ônibus ou outro meio de circulação, é muito tempo perdido, e de forma desconfortável e cara. Segundo a Agenda Rio, (http://casafluminense.org.br/agenda-rio/) documento elaborado pela Casa Fluminense com 12 eixos principais de propostas para a metrópole, 2 milhões de pessoas deixam seus municípios e residências diariamente para acessar oportunidades de lazer, estudo e trabalho nas áreas privilegiadas da capital. Em números, um réveillon por dia, não festejado.

Na Leopoldo Bulhões, uma das principais vias de Manguinhos, há apenas três linhas de ônibus, sendo elas: 350, 634, 489 Caxias. Ellen Grace, moradora de Manguinhos fala sobre o descaso das linhas que circulam na comunidade “Depois dos grandes confrontos que aconteceram na Bulhões e a abertura do pistão (nova pista da Leopoldo Bulhões em direção ao centro), a linha 350 é uma das piores que corta o bairro, parece que eles resgataram os ônibus do depósito. É um descaso total com os moradores, que além disso mofam esperando transporte. Já fiquei mais de 40 minutos esperando, hoje em dia não tenho mais paciência para esperar e acabo pegando o trem, mesmo vindo muito lotado”, conta.


Para Francisco Assis, presidente da Associação de Moradores do Mandela 2, as condições dos transportes públicos estão precárias “Nenhum ônibus popular que circula aqui tem ar condicionado, a situação é bem precária. Só temos três linhas de ônibus. E o 350 só passa de hora em hora. Não vemos melhoras, nós também queremos ir para a zona sul, centro, outras localidades, mas faltam linhas”, fala.


Nossa equipe tentou contato com a empresa Rubanil, que administra a linha 350, para cobrar explicações sobre esses problemas relatados, mas em 2 horas de tentativa nos 5 números disponibilizados no site (http://www.rubanil.com.br/), todos estão ocupados ou não completam a ligação, dificultando ainda mais o diálogo do consumidor com a empresa que presta os serviços. Fizemos contato também na Central de Atendimento da Secretaria de Transporte do Rio e nos foi informado que lá apenas gera o protocolo com a reclamação, que é encaminhado para a prefeitura fazer a fiscalização.
No Código do Consumidor diz que se o consumidor não estiver satisfeito, ele pode reclamar diretamente na empresa. Como fazer isso se não existe contato direto nem indireto? Levando em conta que nem mesmo os e-mails são respondidos e as ligações não são finalizadas, um desrespeito com quem utiliza e paga os serviços prestados pela empresa.
No site Reclame Aqui (https://www.reclameaqui.com.br/fetranspor-rj/onibus-350-rapido-iraja-x-centro_12436530/)você encontra diversas reclamações a respeito da linha 350, inclusive reclamações sobre a impossibilidade de diálogo.

E as outras duas linhas? O 634 tem uma rotina muito parecida com a do 350 em relação ao tempo de espera no ponto de ônibus. Nos finais de semana para você conseguir pegar um ônibus dessa linha sem esperar mais de 1 hora, precisa sair de casa com muita sorte, ou vai se atrasar. O Caxias/Saens Pena é mais confortável, possui ar condicionado e está sempre em bom estado, porém o valor de suas passagens é inacessível para a maioria das pessoas do bairro, custa R$ 6,75, quase o dobro da passagem normal.

Outra situação complicada é a dupla função que o motorista enfrenta, sendo motorista e cobrador ao mesmo tempo, diminuindo assim as oportunidades de emprego e aumentando o risco de acidentes. Segundo uma matéria publicada no jornal O Globo, em agosto de 2017, o vice-prefeito e secretário municipal de transportes do Rio, Fernando Mac Dowell, disse que a prefeitura do Rio já estuda a implantação do fim da dupla função dos motoristas nos ônibus municipais, o que acarretaria a volta dos cobradores aos coletivos. Durante a campanha de 2016, o prefeito Marcelo Crivella assumiu o compromisso do fim da dupla função aos condutores de ônibus. Mas estamos em novembro de 2017 e nada mudou.


O presidente da Associação de Moradores do Mandela 2 falou a respeito deste assunto. “É super perigoso. É preciso ter atenção no passageiro, dar troco, o trânsito, enfim. Pode acontecer um acidente. E tem outra coisa, o desemprego tá muito grande, pra quê tiraram os trocadores? Seria forma de emprego e mais segurança para todos”, conclui. Ellen Grace, também deu sua opinião a respeito do tema. “As empresas só pensam em lucrar e não estão nem aí para a dupla função. Os motoristas trabalham estressados e sobrecarregados”.


Manguinhos, um bairro que reúne 14 favelas, somando mais de 40 mil moradores, ter apenas três linhas de ônibus que passam pela principal via de acesso à comunidade é inaceitável. Se o dinheiro tirado de nossos bolsos através de tributos, taxas e impostos fossem gastos realmente com serviços públicos de qualidade, deveríamos ter um dos melhores serviços, pois, segundo o Fórum Econômico Mundial, pagamos umas das taxas de tributos mais caras do mundo. A pergunta que fica é: se todo esse dinheiro arrecadado não volta para os trabalhadores, para onde ele está indo? Até quando pagaremos essa dívida e ficaremos de braços cruzados?

Matéria escrita Por Renata Dutra e Edilano Cavalcante, ambos são Jornalistas e produtores da Agência de Comunicação Comunitária Fala Manguinhos!

Matéria realizada em parceira do fala Manguinhos e a Casa Fluminense/RJ por meio do Edital Fundo Casa para a Mobilidade Urbana (http://casafluminense.org.br/)

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