domingo, junho 24, 2018
Home > Cidadania > Filtro Solar e o mal da era do capital: a individualidade – LOURENÇO CESAR [opinião]

Filtro Solar e o mal da era do capital: a individualidade – LOURENÇO CESAR [opinião]

 

Há alguns anos, participei de um curso em São Paulo cuja proposta era apreender uma metodologia para se trabalhar com crianças e jovens num curso de informática na Maré. Curso bastante interessante, por sinal. Dentro dessa metodologia, foi recomendado exibir para as crianças um vídeo motivacional americano (eu acho) com a participação de Pedro Bial na narração, chamado Filtro Solar. Ele começava assim:

 

Lourenço Cesar

 

“Filtro solar!
Nunca deixem de usar o filtro solar
Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro
seria esta: usem o filtro solar!
Os benefícios a longo prazo do uso de Filtro Solar
estão provados e comprovados pela ciência,
Já o resto de meus conselhos não tem outra base
confiável além de minha própria experiência errante.
Mas agora eu vou compartilhar esses conselhos com
vocês…”

Eu amei o vídeo, porém, me recusei a repassá-lo aos jovens da Maré. A instrutora, muito indignada, pediu que eu explicasse. O vídeo tem o poder de tirar, em pouco mais de sete minutos, grandes pesos de suas costas. Todas as dúvidas sobre o que fazer da e na vida, em grande parte fruto da “dor do crescimento” e do que é se tornar adulto, são anestesiadas pela bela narração de Bial. Os sentimentos de culpas que nascem, talvez, por uma necessidade de aprovação e autoafirmação em nosso contexto social, são diminuídos e por vezes extirpados de nossas mentes. O medo de ser, seja lá o quê, ou o sentimento de fracasso por não ter o que julga ser imprescindível para ser, seja lá o quê, somem como num truque de mágica.  Existia algo de alucinógeno nesse vídeo que não me passava segurança.

Minha sensação era parecida com a de quem tomou uma bebida e ficou animada com ela, ou de quem leu um livro de autoajuda e passou a se sentir melhor, não sei explicar bem os meus sentimentos na ocasião, então peguei o título como metáfora para facilitar o raciocínio. Filtro Solar. Imaginem que todos os problemas do mundo se resumissem aos perigos dos raios ultravioletas e a solução passava pelo uso do famigerado Filtro Solar. Teríamos mais de 7 bilhões de pessoas usando Filtro Solar! Mas se hoje não temos 7 bilhões de pessoas com acesso a benefícios primários como água potável, como garantir que todos​ usem Filtro Solar? Essa questão já serviria de motivo suficiente para eu não achar o vídeo viável.

Contudo, o que mais me chamou a atenção foi a lógica simplista de achar que o seu Filtro Solar lhe protegeria de todo mal que o cerca. Ideia de que o nosso problema é único e exclusivamente nosso,  e eu também sou o único responsável por ele existir. Igual a algumas linhas da psiquiatria que visam “consertar” uma pessoa sã para um mundo doente. Porém, os problemas dos raios ultravioletas não são do Sol, mas sim da diminuição da Camada de Ozônio. Logo, pra mim, faria mais sentido mobilizar a todos para recuperar a Camada de Ozônio, pois os benefícios serão de toda coletividade.

Aprendi na Favela, com os mais velhos, que no passado o problema da água era individual até se juntaram para a instalação de caixas d’águas e tubulação para o esgoto que beneficiou a todos. O mesmo com a energia elétrica, ainda que em muitos casos, de forma ilegal. Porém, hoje aprendo com uma juventude favelada a lidar com problemas que nem os mais sábios conseguiram ter a coragem de enfrentar, a violência e as drogas.

Ainda no ano passado, tive a oportunidade de conhecer esses jovens que circulam por várias Favelas juntando outros jovens para falar do assunto. Foi num sarau organizado por alunos do Pré-vestibular do CEASM – Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré. Nesse evento é muito fácil encontrar jovens poetas e rapper de outras Favelas do Estado. Uma das que mais me chamaram a atenção foi a MC Martina, moradora do Complexo do Alemão, que traz em suas mensagens sempre uma provocação para o pensamento coletivo e uma convocação à ação através do diálogo e da arte. Ela é uma das fundadoras do coletivo Poetas Favelados, em que os componentes organizam Slam (uma batalha de poesia) em diferentes cantos do Estado. A parceria com o coletivo Movimentos deu origem a uma cartilha sobre a política antidrogas que pode ser conferida no site www.movimentos.org.

Mc Martinha a esquerda – foto Douglas Lopes

Eu poderia usar outros exemplos de ações coletivas que estão tratando de “doenças” coletivas, coletivamente e não se escondendo atrás de um Filtro Solar que em muitos momentos da vida são necessários, mas que temos que ter a consciência de que só vai durar pouco mais de 7 minutos. Portanto, “se eu pudesse dar uma dica sobre o futuro, seria esta: usem Filtro Solar”, mas não deixem de lutar pela restauração da Camada de Ozônio. Em caso de dúvida, juntem-se aos jovens do coletivo Poetas Favelados, eles possuem não só dicas, como experiência no assunto.

Matéria escrita por Lourenço Cezar e produzida para o  Fala Manguinhos!. Lourenço é morador do Complexo da Maré há 40 anos. Está fazendo o mestrado em Educação na UFRJ, é coordenador do Departamento de  Geografia e Meio Ambiente da Faculdade de Caxias, e é diretor do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) além do Museu da Maré

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *