domingo, junho 24, 2018
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A favela pelo olhar de quem vivencia – PALOMA GOMES [REFLEXÃO]

 

favela de Manguinhos
FOTO:Edilano Cavalcante

 

A história pode ser bem interessante se contada através de uma favelada. Para muitos a favela pode ser inspiração, pode ser alvo de emoção, comoção, mas para quem nela vive, ela é um diário entendimento de como a dor causada pela sobrevivência pode ser uma ferramenta de grande potência, seja para o bem ou para mal.

Com a libertação dos escravos, estes sem ter locais para onde irem, assim também com chegada de muitos imigrantes, retirantes vindos de outros Estados do Brasil para o Rio de Janeiro, em busca de trabalhos, surgiram esses aglomerados de casas nessas terras/morros que não possuíam nenhuma estrutura urbana e logo foi batizada de Favela, o termo favela se origina de uma planta que havia na região de Canudos, na Bahia, arbusto típico do sertão nordestino, o faveleiro, mais popularmente favela. No Rio o Morro da Favela, possui este nome porque o morro era coberto por essa planta, que também é símbolo de resistência, por nascer em terrenos tão secos. Especificamente a favela de Manguinhos, era um mangue, um manguezal de caranguejos e muita lama, bem úmido, não era estruturado para habitação.

Wilrismar Holanda
Planta Favela

É interessante fazer parte da favela e saber como ela surgiu de onde vêm suas características e o que ela tem pra contar, você participa das vivências, mas ela fica cada vez melhor quando descobrimos todos os detalhes, daí seu lugar de origem fica bem mais bonito e encantador, sua paixão de ser favelado pulsa cada vez mais e surge um desejo de lutar para construir junto com os atores locais, transformando a realidade que se vive em luta por garantia de direitos e igualdade com muita coletividade.

Crescer numa favela é um orgulho que muitos ainda não compreendem, mas quando entenderem percebem que vieram ao mundo com a imposição de luta, de uma missão bem árdua e trabalhosa, porque não foi escolha, porém muito gratificante. É na favela que entendemos que a o dividir é preciso… “vizinha tem uma cebola para me arranjar? ”, além de ser solidário aprende a ser agradável… “olha vizinha, fiz um bolo e trouxe um pedaço para você, para o Ronaldo e Dudinha, está quentinho”. São lições que não aprendemos quando já possuímos tudo e que não precisamos nem trocar um “bom dia!”… A não ser por formalidades, educação de dividir o elevador de sei lá quantos apartamentos.

Quando se anda pelas ruas e becos encontramos crianças brincando, muita das vezes reproduzindo a experiência que vivenciam todos os dias, mas com muita criatividade e coletividade, vemos, no entanto a falta de oportunidade para outros tipos de vivências de mundo. Também vemos trabalhadores indo e voltando de seus locais de trabalho, os trabalhadores locais como os das vendas do “Ninja” e do “Maciano”, entre outros. O que não vemos é lazer para essa classe, tudo é bem inacessível, não só de distância, porque tudo é fora do território, mas os custos são bem altos, o que temos de gratuito é pouco divulgado. Nossas mulheres como a Dona Jane, mulher guerreira do território, que tem sua jornada diária com trabalho de reciclagem, trabalhos domésticos, participação em vários coletivos de luta por direitos e ainda assim não tem o próprio direito a um lazer, por falta de uma estrutura social digna. Muitas das vezes os que conseguem, é ir aos cultos onde socializam um pouco e exercem a sua fé. Outras conseguem se divertir um pouco em algum pagode ou bailes que acontecem em bares espalhados por Manguinhos, bebe sua cervejinha e relaxam em momentos de descontração. Tem muita vontade de viver, só não há muito tempo e ofertas para isso.

foto: EdilanoCavalcante

Existe também uma outra parte da população favelada que constroem projetos incríveis, mesmo com muitas dificuldades. Temos balé para crianças, roda de rimas e poesias, dança, capoeira, artesanato, projetos sociais para inclusão de crianças com deficiência, contações de histórias, teatro, música, e muitos outros, mesmo faltando investimento, feito no estilo nos por nos a Favela não deixa se abater.

Como o nome que foi dado a ela, seguimos nós favelados nessa resistência, somos sementes de plantas nascidas em terrenos que não foi pensado, mas temos sementes e vamos continuar semeando vida e lutando por nossos direitos de viver em nossas favelas ou em qualquer parte da cidade, felizes e com dignidade, andando em nossas favelas tranquilamente com a decência de quem anda por qualquer outra parte da cidade sem medo e de cabeça erguida.

PALOMA GOMES é moradora de Manguinhos, formada em pedagogia e militantes dos direitos humanos.

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